Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

A ida ao barbeiro I

 Aproveitei o início da manhã para ir cortar o cabelo. É sempre uma boa hora em qualquer parte do mundo. É raro não acontecer, mas a essa hora é comum ver os reformados no barbeiro. Como a maioria já tem pouco cabelo acaba por ser rápido. Desci, então, a rua e mal me aproximei da montra confirmei a minha previsão. Três homens na casa dos setenta davam mais o ar de visitantes do que de clientes. Um deles, de pé, aguardava que o barbeiro arrumasse umas gavetas para poder tomar o seu lugar na cerimoniosa cadeira.

Entrei com alguma confiança. Nem precisei de dizer nada. Ainda à porta não se tinha fechado atrás de mim e já ele me dizia:

- Bom dia! É só um instantinho, sim? Vou só atender aqui estes senhores. É rápido!

Cumprimentei o resto da sala e fui retribuído com simpatia. Sempre me senti bem perto dos mais velhos, como um conforto, uma segurança quase familiar que vem dos olhos cheios de história e vida, dos cabelos gastos e já com pouca disposição para a vaidade desnecessária. Há mais ternura no gesto silencioso de um septuagenário do que em qualquer sorriso errante.

A sala principal da barbearia não devia apanhar muito sol durante todo o dia. As plantas eram folhas furadas por balas de secura. Sentei-me junto de uma delas, no sofá de napa castanho, e peguei no jornal que estava à minha frente, numa pequena mesa de apoio. De repente, abre-se a porta das divisões interiores e ela sai. Só lhe vi os lábios rosados e um cabelo cor do sol que iluminou toda a sala. O deslumbre foi apenas meu. Habituados à presença de Nadja um "bom dia, rapariga" foi tudo o que levou para além do meu denunciado espanto.

O homem que estava ao meu lado foi o único que continuou a saudação à jovem ucraniana e falando muito devagar e alto para que - julgava ele lá nos seus pensamentos - ela o compreendesse prolongou-se em perguntas de circunstância. Não muito sorridente, mas simpática e cordial, a rapariga ia respondendo num português perceptível a qualquer criança de 4 anos.

Reparei então no emblema colocado sobre a tal porta de onde saíra a rapariga. "Os Belenenses". Surpreendido, deixei-me ficar a olhar pensando que afinal há um certo provincianismo nos detalhes da grande cidade. E não é aquele provincianismo de quem nasceu no campo e veio para cá procurar melhor vida. Não! É um provincianismo endógeno. Gostei de ver "Os Belenenses". Simpatizo com aquele azul de mar das camisolas e com a fluência do seu futebol. Isto deu-me para adivinhar, em contagem decrescente, o tema que iria servir a conversa daquela manhã. Não cheguei sequer aos três. Em menos de cinco minutos já me estavam a meter no barulho festivo de uma discussão de futebol e igualmente surpreendidos ficaram quando lhes revelei orgulhoso que o meu clube tinha ficado para trás, na terra que deixei para me entregar nos braços da metrópole.

 

 

publicado por António às 12:11
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Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Primeiras impressões

Gentilmente, Dona Estela esperou que eu chegasse após o jantar para saber se precisava de alguma coisa. Já tinha tido a delicadeza de me convidar para a acompanhar à mesa mas não quis dar trabalho. Digamos que ainda não estou à-vontade para uma ligação mais familiar ou para esse género de intimidade. Jantei num pequeno restaurante a dois quarteirões do prédio.

Mesmo assim, julgo que foi melhor ter arranjado este quarto, em vez de me estar a sujeitar ao desconforto de uma pensão às Portas de Santo Antão ou noutro sítio mais obscuro. O bairro é calmo à noite, apesar de extremamente movimentado durante o dia. O quarto é pequeno mas aconchegante e para já tem tudo o que preciso.

Da janela ouço agora o som da televisão dos vizinhos que devem estar a assistir a um desses concursos de enorme sucesso. Não tenho sentido qualquer falta do aparelho. Limito-me aos jornais, aos livros e, claro, à internet. E esse é para já o único luxo de que não prescindi.

publicado por António às 22:01
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A chegada

Cheguei há já alguns dias à cidade onde irei viver por tempo indeterminado. Ainda em arrumações e a ambientar-me, decidi abrir este blogue para ir escrevendo esta minha cruzada em jeito de diário. Talvez tenha necessidade de me sentir acompanhado ou de me sentir ouvido. Estes dias em total silêncio têm sido estranhos, principalmente numa cidade tão movimentada e ruidosa.

Estranho, também, é o facto de, com tanto cuidado com os preparativos e na serenidade das despedidas, já que a pressa é inimiga da perfeição, me ter esquecido de cortar o cabelo. Então chego a um sítio totalmente desconhecido a necessitar de um corte de cabelo?! Felizmente ontem enquanto passeava ao início da manhã descobri uma pequena barbearia de bairro no fundo da rua. Hoje, depois do almoço, irei lá arriscar o corte. Será o segundo barbeiro de toda a minha vida. É um número audacioso.

publicado por António às 11:08
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