Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

O acordo

Habituei-me às prostitutas.

Nos últimos tempos, no meio de uma infindável quantidade de trabalho, onde toda uma nova linguagem e constante aprendizagem exigem de mim níveis de empenho de que o meu corpo se desabituara desde os tempos da universidade, pouco me sobra do dia para poder relatar com serenidade esta minha nova jornada. À noite opto pela leitura ou por longos passeios que me ajudam a conhecer melhor as ruas da cidade.

Seria suposto acabar o dia cansado e dormir profundamente até à manhã seguinte. No entanto, isso não tem acontecido e no último mês tenho sido visitado por uma insónia suspeita. É então que saio durante a noite e vagueio num tom cauteloso.

Inexplicavelmente, dirijo-me como por impulso para o cais e caminho na penumbra das ruas com a lentidão imposta pela insónia. No início, confesso que me deixei atrair pela ideia romântica de uma zona boémia e decadente, um corolário da cidade descrita na ficção e nas canções de outros tempos. Porém, cedo descobri que já pouco disso existe e que também a noite está cada vez mais só.

As prostitutas continuam a patrulhar as esquinas, talvez não tanto como outrora. São, ainda, a segurança de meliantes como eu na falta de luz e de movimento. Habituei-me à sua presença e julgo que também se habituaram à minha. É como se tivéssemos estabelecido um acordo tácito, um pacto onde nos comprometemos a não nos estranharmos. Talvez por isso acredite que é bem mais simples conviver com elas do que com tantas outras coisas que, no entanto, são mais aceitáveis à luz do dia.

 

publicado por António às 01:20
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