Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

O Cristo-Rei

Chego pela noite a Lisboa. Gosto de chegar e dizer "cheguei a Lisboa". Gosto de dizer Lisboa. A cidade parece que não saiu dali e a sua vida própria continua mesmo sem nós. Esse charme da independência enche-me da mais profunda admiração do ser-se grande.

Por entre as luzes e os carros na Avenida lá vou de encontro ao miradouro onde restam ainda meia dúzia de dandies do anarquismo e mais duas ou três vítimas bafientas dos anos setenta. Deixo-me ficar a olhar o rio, as casas, a ponte e, do outro lado, o Cristo-Rei. Enquanto tudo o resto parece um prolongamento da cidade, como a longa cauda de um vestido de noiva que desliza ininterruptamente pelo corredor da igreja, o Cristo-Rei confronta-a, reage. Ali, erguido sobre um tempo esquecido, Cristo parece querer abraçar a cidade abençoando-lhe todos os gestos e protegendo-a do infortúnio.

Porém, enquanto acaricia a cidade o Cristo vira costas à outra margem e deixa-a ao abandono. Triste e feia, a margem sul do Tejo é como uma favela que se prefere manter entregue ao esquecimento. Talvez por isso sinta que o Cristo-Rei é um bom exemplo daquilo que as pessoas que fazem e querem Lisboa pensam de tudo o que está para lá das suas fronteiras:  é paisagem.

publicado por António às 17:38
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