Segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Início do II acto

 Saindo de casa já pelo meio da manhã sinto um estranho desconforto. Os meados de Setembro trazem estas primeiras hesitações do tempo e o corpo reage mal. Pelas ruas, as roupinhas de meia-estação começam a ser mais frequentes.

É com esta meia estação que chego novamente a Lisboa depois de algum tempo fora do país. Parece que o individualismo na cidade precisa de currículo. Pelo menos a mim exigem-mo.

As ruas vomitam cartazes de campanha política e já se nota mais o trânsito. As pessoas por aqui têm uma certa necessidade em fingir actividade e circulam freneticamente criando a ilusão de urbanidade. É um complexo.

Descubro, entretanto, que Pedro Mexia regressou com um novo blogue e descubro, ao mesmo tempo, um Senhor Palomar. De repente não mais me sinto sozinho.

 

publicado por António às 14:44
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Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

O acordo

Habituei-me às prostitutas.

Nos últimos tempos, no meio de uma infindável quantidade de trabalho, onde toda uma nova linguagem e constante aprendizagem exigem de mim níveis de empenho de que o meu corpo se desabituara desde os tempos da universidade, pouco me sobra do dia para poder relatar com serenidade esta minha nova jornada. À noite opto pela leitura ou por longos passeios que me ajudam a conhecer melhor as ruas da cidade.

Seria suposto acabar o dia cansado e dormir profundamente até à manhã seguinte. No entanto, isso não tem acontecido e no último mês tenho sido visitado por uma insónia suspeita. É então que saio durante a noite e vagueio num tom cauteloso.

Inexplicavelmente, dirijo-me como por impulso para o cais e caminho na penumbra das ruas com a lentidão imposta pela insónia. No início, confesso que me deixei atrair pela ideia romântica de uma zona boémia e decadente, um corolário da cidade descrita na ficção e nas canções de outros tempos. Porém, cedo descobri que já pouco disso existe e que também a noite está cada vez mais só.

As prostitutas continuam a patrulhar as esquinas, talvez não tanto como outrora. São, ainda, a segurança de meliantes como eu na falta de luz e de movimento. Habituei-me à sua presença e julgo que também se habituaram à minha. É como se tivéssemos estabelecido um acordo tácito, um pacto onde nos comprometemos a não nos estranharmos. Talvez por isso acredite que é bem mais simples conviver com elas do que com tantas outras coisas que, no entanto, são mais aceitáveis à luz do dia.

 

publicado por António às 01:20
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Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Manhã

 Quando se está sozinho não se é muito pessimista. E, então, passa-se a saborear a manhã de outra forma. A manhã é sempre o começo inocente e tranquilo de um dia que só pode melhorar.

publicado por António às 09:38
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Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Amores estivais

 Voltam os raios de sol às avenidas. Ilumina-se, então, uma passadeira onde elas desfilam sem complexos, confiantes do seu caminho, como se o sol lhes perfumasse a alma. São belas executivas, discretas; são fashion victims de pernas douradas; são esquerdistas de ombros descobertos e o cabelo mal amanhado. Amo cada uma à sua passagem. A cada passo um novo amor. É a abertura triunfal do Verão, o brilho certo da inconsequência urbana.

 

publicado por António às 13:22
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Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

O Cristo-Rei

Chego pela noite a Lisboa. Gosto de chegar e dizer "cheguei a Lisboa". Gosto de dizer Lisboa. A cidade parece que não saiu dali e a sua vida própria continua mesmo sem nós. Esse charme da independência enche-me da mais profunda admiração do ser-se grande.

Por entre as luzes e os carros na Avenida lá vou de encontro ao miradouro onde restam ainda meia dúzia de dandies do anarquismo e mais duas ou três vítimas bafientas dos anos setenta. Deixo-me ficar a olhar o rio, as casas, a ponte e, do outro lado, o Cristo-Rei. Enquanto tudo o resto parece um prolongamento da cidade, como a longa cauda de um vestido de noiva que desliza ininterruptamente pelo corredor da igreja, o Cristo-Rei confronta-a, reage. Ali, erguido sobre um tempo esquecido, Cristo parece querer abraçar a cidade abençoando-lhe todos os gestos e protegendo-a do infortúnio.

Porém, enquanto acaricia a cidade o Cristo vira costas à outra margem e deixa-a ao abandono. Triste e feia, a margem sul do Tejo é como uma favela que se prefere manter entregue ao esquecimento. Talvez por isso sinta que o Cristo-Rei é um bom exemplo daquilo que as pessoas que fazem e querem Lisboa pensam de tudo o que está para lá das suas fronteiras:  é paisagem.

publicado por António às 17:38
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Terça-feira, 12 de Maio de 2009

A hora do almoço

 Como se um sinal verde abrisse para iniciar uma corrida, eles saem todos em direcção a pequenos snacks espalhados pelas avenidas. Enchem um espaço já de si desconfortável. Engolem sandes e salgados à pressa. Não há tempo.

Pelas ruas as correrias e as conversas sobre a bolsa, o mercado, os juros e talvez sobre o fim-de-semana programado no turismo rural.

Entram e saem dos snacks e galopam pelo passeio. Os fatos de poliéster roçam uns nos outros. Os perfumes misturam-se com o cheiro da grelha e da "sopa do coração". Sai uma imperial, saem duas e mais duas. Os copos tilintam na travessa, os pratos estalam em cima uns dos outros, as conversas confundem-se e o volume é cada vez maior...

Saio. Procuro um banco num jardim ali perto e sento-me a comer. Passo os olhos pelo jornal e descanso as pernas esticando-as sobre o ar. As pessoas que passam olham-me com estranheza, como se eu não devesse estar ali. Eu deveria era estar encafuado no snack com os cheiros e o poliéster e não a almoçar na rua, a apanhar ar e a aproveitar o meu momento de descanso.

Para que serve afinal a "hora do almoço"?

publicado por António às 14:31
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Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Quanto tempo o tempo tem?

 Falta de tempo. Sempre duvidei da falta de tempo. Na província nem se fala do tamanho do tempo. O tempo é simplesmente tempo. Está lá.

 A verdade é que fui forçado a comprimi-lo, a jogar com ele, a ceder aos seus pequenos caprichos. Hoje sei que o tempo tem tamanho. Tem o tamanho da distância entre os semáforos, entre as estações do metro; o tamanho que resta entre as torres de processos da minha secretária.

 E toda esta velocidade deixa-me cansado. Tenho ainda algumas coisas para fazer antes de me deitar e uma terrível falta de tempo.

publicado por António às 20:36
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